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Inflama-me de poesia

Inflama-me de poesia,
Daquela que se diz cheia de pecado,
De amor torpe, profano.
Aquela que se esconde
Na escuridão debaixo dos lençóis.
Eu quero a poesia
Dos que morrem em manicômios,
Em balcões de bares cuspindo sangue,
Nos recantos esquecidos
Onde cachimbos são louvados.
A poesia colorida da feira
Com tomates, cebolas, chuchus,
Importações do Paraguai,
Névoa de farinha e caranguejos sás,
Não me satisfaz.
Eu quero a poesia
Dos catadores de legumes podres,
Das mãos briguentas
Por cabeças de peixes e tripas aviárias no chão.
Os invisíveis que concorrem com os cães
Pela sobra assouguiana.
Não quero a poesia cana-caiana,
Romances de engenhos,
Amores de melaço,
Paisagem de porteiras abertas,
Carros de bois saudosos.
Cachaça de boa.

Eu quero a poesia
Dos escravizados em canaviais,
Dos ilhados em engenhos fantasmas,
Da carroça que não tem boi,
Não tem sol de melaço.
E o doce da cana?
– aproveita em teu açúcar refinado.
Ah... mas a cachaça, referencia nacional
Eu sei que tem.
Da boa não sei.
A que alcooliza já experimentei
E ainda experimento,
Em bares, calçadas, escadarias,
Em bancos de feiras, nas praças,
Nas pontes, nos açudes,
Em meio a canaviais.

Não quero nada sacro, escolástico.
Nada vindo desses vigários carmelitas,
Franciscanos, dos rosários,
Das sagradas famílias,
Dos amparos, dos misericordiosos,
Das soledades e conceições.
Não quero nada desses que não entendem a vida.
Eu quero a poesia que esteja em mim.
Que esteja tão próxima,
Mas tão próxima,
Que se funda
E sejamos um só.

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Esse conteúdo foi criado e postado por:

Philippe Wollney

Autorizado por:
Fundarpe

em 05.04.2009 às 23h33


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poesiapernambucana, poesiamarginal, poesiacontemporanea

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